Qual a sua loucura? Esta é a pergunta que o Conselho Regional de Psicologia (CRP/SP) faz no mês de maio, período em que se comemora a Luta Antimanicomial. Luta contra o aprisionamento dos modos de ser pelas teorias e técnicas psi, desde os manicômios até a excessiva medicalização dos sofrimentos e a “atual” imposição de procedimentos como a internação compulsória.

Muitos responderão ao questionamento com  diagnósticos já definidos por profissionais, pouco conseguindo olhar para si e visualizar suas outras características. Já pensou em olhar suas extravagâncias sem remetê-las a padrões esperados, utilizando-se destas para se afirmar perante a vida e criar novos rumos que não aqueles esperados? Parece isto ser uma tarefa árdua, já que estamos inseridos numa sociedade em que nossos modos de viver são por todo o tempo capturados e utilizados ou pela indústria farmacêutica como doença ou como instrumentos de consumo em que se criam grupos em potencial.

Será que uma pessoa que possui dificuldade em se relacionar com os outros, que não se utiliza da comunicação verbal e assim faz uso de outras ferramentas para se comunicar, que possui comportamentos repetitivos e voltados para si (como se o mundo não fosse..kkkk) é apenas um autista? Se respondermos que sim, teremos um grande problema na relação com esta pessoa…já que outras milhões de expressões que poderiam ser encontradas não as serão, e então estaríamos fechando a porta para outras possibilidades de estar/ser em apenas uma nomenclatura, anulando assim a VIDA.

Podem estar achando estranha minha fala, mas é a partir da visão de uma sociedade do que é normal/anormal que técnicas e procedimentos são inventados para curar aqueles que possuem desvios e diferenças que incomodam e/ou não são produtivos.

A loucura ao longo da história foi encarada de formas diversas sendo por muito tempo explicada como falha da natureza, castigo ou dádiva dos deuses, entre outras tantas explicações sobrenaturais, sendo ela  uma responsabilidade da família. Contudo, a partir dos séculos XVII e XVIII, período chamado de grande internação os loucos pela sua incapacidade ao trabalho, juntamente com os mendigos, criminosos, velhos e demais excluídos da sociedade começaram a ser objeto de intervenção, sendo então encaminhados a hospitalização, esta ainda sem uma função médica com o único objetivo de reclusão para o controle da ordem social.

Com o advento da psiquiatria a história muda em alguns termos, no final do século XVIII e início do XIX quando os médicos Willian Tuke e Philipe Pinel realizaram a chamada “humanização dos pacientes” as correntes foram retiradas, contudo a visualização de que estes eram doentes e assim passíveis de intervenção médica possibilitou a criação e introdução de práticas terapêuticas que buscavam a cura, reafirmando assim, a incapacidade social dessas pessoas e negando mais uma vez as diferenças. O hospital/manicômio torna-se a partir daí um local de diagnóstico e classificação, aonde apenas o saber médico era capaz de dizer verdades e destas surgiram justificativas para a criação de técnicas e procedimentos como punições e isolamento.

É no pós Segunda Guerra Mundial, e mais fortemente a partir das décadas de 1970 e 1980, que movimentos contra essas formas de tratamento são criados e fortalecidos, propondo que as pessoas com transtorno mental fossem tratadas de forma humanizada, resgatando sua participação no âmbito familiar e comunitário, desejando-se substituir o modelo centrado na hospitalização e isolamento para um modelo em que o cuidado fosse feito pela e na vida e no núcleo social de cada um. Sendo assim, a chamada Luta Antimanicomial vem trazer uma perspectiva importante, a internação deve tornar-se apenas um item dentro tantos outros, não devendo ser uma sentença inquestionável. É importante apontar aqui, que quando o movimento questiona as instituições manicomiais não está falando apenas dos prédios e das práticas exercidas dentro deles, mas também das práticas cotidianas que aprisionam e violentam as pessoas, como a medicalização excessiva, padrões diagnósticos que rotulam o sujeito e a retirada de autonomia das pessoas.

Digo de antemão, que não há negação dos sofrimentos que o corpo produz quando adoece e muito menos a negação do cuidado, ao contrário, a discussão está no Para Quê a cada dia exercitamos mais e mais as padronizações de ser, estar e sentir como se houvesse um ideal…quase que impossível, já que na atualidade o ideal é: nunca sofrer ou se angustiar, delirar então…de maneira nenhuma.

Àqueles que passeiam pelas praças públicas, que gritam pelas ruas as contrariedades de seu pensamento, que não tomam banho todos os dias, que falam coisas desconexas poetisando sua existência, sempre são objetos de intervenção. Aí vale algumas problematizações para nos fazer pensar…

Será que trancá-los é a melhor opção? Será que temos necessariamente que lançar mão de uma quantidade exorbitante de medicamentos para dizer que cuidamos? Será que estamos atrás do cuidado e assim aumento de autonomia ou atrás de uma diluição do que é potente anestesiando as diferenças?

Vale aqui dizer que quando falamos de loucura estamos trazendo todos os modos de ser “louco”, já que se temos de um lado o que delira nas praças também temos os que se sentem extremamente angustiados na sua vida e assim procuram um psiquiatra ou psicólogo sendo muitas vezes rotulados. O que muda nestes dois contextos é a aceitação social.. já que, o que ainda for produtivo pode ser considerado mais normal e assim andar “livremente”. Digo livremente entre aspas, pois as categorizações psíquicas nos marcam e definem, assinalando nossos traços e ditando como é o modo de ser de cada pessoa e assim sentenciando o que está por vir.

Há alguns dias assisti um filme italiano que expressa exatamente o que quero lhes trazer, chama-se “Dá para Fazer (Si Può Fare)”. O filme nos conta a história, baseada em fatos reais, de Nello – um sindicalista – e um grupo de pacientes de saúde mental que são colocados frente a frente para trabalharem em uma cooperativa. Nello por acreditar na força do trabalho cooperativo começa a realizar assembleias com os pacientes os intitulando como sócios, e assim todos podem opinar e contribuir com suas ideias para a qualificação do trabalho. Todas as opiniões passam a ser válidas, mesmo aquelas consideradas “estranhas” e um tanto incomuns. A partir das assembleias realizadas decide-se iniciar trabalhos com parquet, e neste momento os pacientes de saúde mental deslocam-se do seu lugar de doente/paciente para o de sujeito com potencialidades, direitos e deveres, passando a controlar sua vida. Reduzem-se as dosagens da medicação e consequentemente os seus efeitos, o que faz com que eles que no início do filme estavam sem força para a vida tornassem pessoas que jogam futebol, brigam, riem, paqueram, ou seja, permite-se a vida.

O que me chamou a maior atenção, é que todos eles continuam com suas características: agressivas, amorosas, delirantes, loucas, engraçadas, tristes, com seus sofrimentos, felicidades, dificuldades e facilidades…mas ao invés disso ser o foco de intervenção e dessa maneira anulado, transformam-se em fonte de diferença e potência.

A chave parece estar aí…não é que vamos negar as loucuras, mas sim reafirmar suas existências e dizer que elas não acabam em si mesmas. Quero dizer, que um esquizofrênico, um autista, um qualquer outro diagnóstico deve estar para além dele… pessoas possuem desejos, anseios, dificuldades, medos, forças e o papel da sociedade e principalmente dos profissionais é de afirmar essa diferença, potencializando o que há de mais importante para cada existência. Pense nisso…

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